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terça-feira, 22 de março de 2011

Compareçam!!!!!!!!!!



Dia 26/03 tem exibição especial de um dos trabalhos
mais expressivos do NCA o Doc-Fic "Videolência".


Videolência - 58 min, São Paulo - Brasil/2009
Realização do Núcleo de Comunicação Alternativa:
O trabalho aborda os desafios enfrentados por grupos que trabalham
a produção de vídeo de maneira sócio-política fora do circuito comercial,
colocando em debate temas como vigilância, trabalho, periferia e representação.


Coletivos entrevistados:CineBecos
Filmagens Periféricas
Brigada de Audiovisual da Via Campesina
Cinescadão
Cinema Nosso
Coletivo Artemanha

Ficha técnica:Fernando Solidade Soares
Diego FF. Soares
Daniel FagundeS.
Paulo Pucci

A exibição será às 16hs no Sesc Pinheiros
Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros (Próximo da igreja de pinheiros)


Após a exibição teremos um debate com Kiko Gofman (Cineasta e antropólogo), Luciana Dias (Coletivo CineBecos), Fernando Solidade Soares (NCA) e mediação de Guilhermo Aderaldo (Doutorando em antropologia Social pela USP).


O evento é gratuito e todos serão bem vindos, mas as vagas são limitadas então chegue
pelo menos uns 15 minutos antes para garantir o ingresso.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Política e Sensibilidade




 Em um momento caracterizado pela universalização da linguagem gestionária e das práticas de consumo, perde-se de vista o sentido da palavra "política". Ao ouvirmos o termo, é comum que direcionemos nossa imaginação aos senhores de terno e gravata, eleitos (ou não) por meio do voto popular, que costumamos ver nas matérias jornalísticas, geralmente envolvidos em escândalos ou proferindo discursos populistas por meio dos quais, se não os heróis, ao menos os vilões ganham perfis muito claros ( pessoas geralmente pobres e /ou pertencentes a minorias étnicas ou religiosas).  A "política" então passa a ser vista em seu caráter meramente técnico e, lógicamente, privado, como se fosse um espaço a ser administrado por um corpo de gestores.  Segundo esta lógica há, um "fora" da "política", o que faz com que aqueles que se encontram "dentro" dela, gozem de privilégios, entre os quais a "procuração" pública para decidirem sobre a vida (e a morte) dos que sobram e se vêem, por este motivo, obrigados a ocupar as bordas do mundo, como no título do belíssimo livro de Michel Agier (Aux Bords Du Monde: Les Refugiés, Ed. Flammarion, Paris, 2001), sobre o enorme contingente dessas populações "indesejáveis", a ocuparem espaços de fronteira como os assentamentos de "refugiados" do ACNUR (Auto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Nesta perspectiva "Política" e "polícia" podem ser compreendidas como sinônimos. Mas é apenas quando as substâncias se misturam e o caldo entorna sob o chão brilhante das grandes metrópoles mundiais que podemos resgatar um outro sentido para o termo. É por isso que filmes como "London River" (traduzido para o português como "Destinos Cruzados") ganham extrema importância, pois, ao contrário de fazer coro ao discurso midiático mais raso, como o péssimo "O Preço da Coragem" (que alia o marketing da geopolítica norte americana ao marketing pessoal de Angelina Jolie), complexifica a problemática relação que se estabelece quando as fronteiras se dissolvem. 




O filme narra o encontro entre as trajetórias de Elizabeth Sommers (Brenda Blethyn), uma senhora inglesa interiorana e protestante e o guarda florestal muçulmano Ousmane (Sotigui Kouyaté). O contexto é amarrado pela fatídica data de 7 de julho de 2005, quando uma série de atentados tiraram a vida de muitos usuários do sistema de transportes públicos de Londres. Assim, se por um lado Ousmane vai da França até a Inglaterra , carregando em seu corpo os marcadores sociais de sua diferença , para buscar notícias de seu filho, com quem não mantinha contato a muitos anos, desde que que largou a família no continente africano (o nome de seu país de origem não é mencionado), por outro, Elisabeth,  que após ver a notícia dos atentados na televisão, também segue à procura da  filha (que não atende às suas ligações) , acaba, da mesma forma, deparando-se com uma terra estrangeira e aparentemente hostil, ainda que no seio do próprio país, ao notar que o endereço encontrava-se no meio de um bairro de origem árabe, na periferia da capital inglesa. As cenas da chegada de Elisabeth ao bairro árabe/muçulmano e dos seguidos choques com a "vizinhança", sobretudo, após a descoberta do relacionamento entre sua filha e o filho de Ousmane são tocantes. Aos poucos aquela alteridade à primeira vista tão distante vai se tornando a mesma substância e assim ambos os personagems vão se revelando de forma majestosamente complexa. Ai encontra-se, talvez, a maior qualidade do filme, uma vez que ele não permite reduções a nenhuma forma de dicotomia. Com o desenrolar da trama vamos notando que a inglesa branca, apesar de seus preconceitos explícitos, não é nenhuma vilã estabelecida e que o senhor de origem africana e negro também não pode ser visto como uma pobre vítima com uma mentalidade esquiva de preconceitos xenófobos. Do mesmo modo surpreende o aparecimento de um policial muçulmano que nem por isso se solidariza especialmente com Ousmane. Ao longo do filme é possível identificar os personagens com todos os papéis sociais construidos pela mídia corporativa e pela grande narrativa da geopolítica contemporânea. Tanto o filho de Ousmane (negro, muçulmano e descendente de africanos), quanto a filha de Elisabeth (branca, inglesa e convertida ao islã) poderiam ser os "vilões" (terroristas) ou os "mocinhos" (vítimas), assim como os demais personagens que vão, com o avanço da narrativa, traduzindo de maneira brilhante, seus problemas pessoais em verdadeiras questões de ordem pública e resgatando a "sensibilidade" da "política", na medida em que a trazem para o espaço vivido.  Filmes como este, ou ainda "Olhos Azuis"(2010) e "O Visitante"(2007) , apontam claramente para o fato de que, na "periferia" do mundo (ou no "Hipergueto", como classifica Agier (2009)), um professor primário pode ter mais importância que um diplomata do mais auto escalão.   

Por Guilhermo Aderaldo

Algumas Palavras sobre "O Visitante"




Um professor universitário desmotivado se vê obrigado a ir até Nova York, onde possui um apartamento há muito tempo desocupado, para apresentar em uma conferência acadêmica um artigo no qual figura como co-autor, mas que sequer havia lido. Lá chegando, se depara com a cena absolutamente kafkiana de dois imigrantes ilegais, um Sírio e uma senegaleza, morando em seu apartamento, que por sua vez, havia sido sublocado por uma outra pessoa da qual nunca ouvira falar. Assim começa "O Visitante". Ao longo do filme somos levados para uma inteseção capaz de dar relevo não à vida de um personagem isolado, tornando-o protagonista de uma sequencia de ações amarradas por um final feliz, mas a um encontro perturbador, que começa no momento em que o professor aceita dividir o apartamento com os dois "hospedes" até que encontrem outro lugar para ficar. Aos poucos o senhor de meia idade, marcado pelo automatismo da vida burguesa passa a sentir uma irresistível atração pela forma como os dois jovens imigrantes encaram a si próprios. O filme não revela, mas imagino que entre seus pensamentos estivesse passando alguma pergunta do tipo: Como tais jovens, em uma condição tão precária e em um país estrangeiro, conseguem viver de um modo tão rico e fascinante (reparem que não uso a palavra "feliz")? Qual é o segredo que carregam consigo? Ao segui-los e permitir a troca de posições, na medida em que se torna "aluno" do rapaz, que passa a ensiná-lo a tocar um instrumento percursivo, o "professor/aluno" se submete não a novas teorias, mas a um outro modo de pensar e experienciar sua relação com o mundo. As aulas, inicialmente tomadas na sala do apartamento , não começam com uma lição técnica/teórica, mas com uma explicação sobre o tempo e a relação que se deve ter com o o próprio corpo. Aquele que invertia os papéis e se tornava "professor" começa dizendo: "Coloque os pés no chão por inteiro, agora coloque o tambor no meio de suas pernas, assim!" O "aluno/professor" ri, pois até então, dentro de sua concepção "moderna", corpo e espírito pareciam coisas completamente distintas, mas o novo "professor" continua e diz: "Então você tira a beirada dele com os tornozelos assim!" e prosegue: "Eu sei que você é um homem muito esperto , mas com o tambor deve se lembrar de não pensar, pensar vai estragar certo?" O "aluno" concorda e o "professor" dá novo prosseguimento à sua "aula". Diz ele: "Agora dê umas batidas" O "aluno" bate de um modo mecânico e o "professor" diz: "Não tão forte, não está bravo com ele". Naquele instante parece que a ficha começa a cair e o "aluno" passa a entender que não está sendo ensinado a tocar um instrumento apenas, mas a perceber o mundo e seu próprio corpo. Mas a "aula" continua e o "professor" fala: "Mais uma coisa: você ouve música clássica, então pensa em quatro batidas, um, dois, três, quatro, este é um tambor africano, então tocará em três. Tem que esquecer a clássica, esqueça!". A partir dai se inicia um ritmo em sua fala que o leva a tocar o instrumento e a coisa se faz. O instrumento se torna o próprio corpo e, consequentemente o mecanismo de comunicação entre ambos e nesse momento a percepção daquele que havia chegado no papel de "professor" e que agora se tornava "aluno" é raptada pelo encontro. Ao colocar seus valores em perspectiva, o mundo também é suspenso. Dai por diante inicia-se uma amizade que é defrontada pela prisão do jovem sírio e que leva aquele que jamais havia se visto em tal condição, a se ver como "estrangeiro" e frequentar o submundo de seu até então "tão nobre" mundo. Há ainda vários outros filmes dentro desse lindo filme, mas entre todos eles o que fica é a idéia de que isso que costumamos chamar de "vida" não se reduz a termos como "eu" ou "outro", mas se encontra nas relações. Trata-se de uma espécie de "visitante" que chega sorrateiramente com perguntas maravilhosamente incômodas e fechar as portas para ele equivale a abraçar a morte, não do corpo, mas da alma. É apenas na medida em que nos ofertamos aos desafios presentes nas perguntas desse ilustre "visitante" que nos tornamos corpo, movimento, encontro, ou seja: vida!

PS:Postagem importada do blog "Olharinfoco"

Por Guilhermo Aderaldo